Sim, eu vi!

Olha eu aí na TV, gente!
Confesso perante todos aqui que não sou telespectador da TV Cultura, ou da TV Brasil, que no Rio de Janeiro, é o popular “canal 2″. Minha esposa, ao contrário, adora, mas isso é outra história. Mas, depois de ler em vários sites de notícias, que o pregador do Linux mais arroz-de-festa e boa-praça desse lado da galáxia estaria no “Roda Viva“… Então vamos ver, ora! Depois da desastrada aparição do Sérgio Amadeu no programa do Jô (mesmo com o Júlio Neves tentando corrigir), vamos ver como será a fala do professor Jon Hall, nosso querido “Cachorro Louco”.
Meu mea culpa diminui porque gosto de ver o “Roda Viva“, desde o tempo em que um amigo era talvez o único telespectador no bairro onde ele morava. E comecei a ver. Claro, foi difícil ver hoje o programa com a concorrência de outra emissora, cujo programa nas segundas-feiras é um ritual quase religioso para mim assistir… Mas tem YouTube, e tem reprise no sábado. Então vamos ver o que o Maddog tem a dizer. Antes, quem quiser ler a ficha da entrevista, clique aqui.
Resolvi colocar em tópicos, para facilitar e (tentar) ser sintético:
- O apelido, “Maddog”, vem dos alunos dele presenciando uma discussão de Jon Hall com seu orientador (deve ser de mestrado ou doutorado). O orientador, na sua fleuma britânica, e o Jon, esbravejando como um cachorro louco. E ele tinha 27 anos na época (eu defendi tese de mestrado com 25, então entendo bem isso…).
- Ele está com 59 anos, e há 40 lida com software livre. Sim, ele começou com 19 anos (entendeu, garotada que só quer saber de jogar Prototype e CS?), no tempo em que um compilador custava US$ 100.000. Sim, cem mil dólares.
- Ele cita o Linux e principalmente o software livre como uma questão econômica: As divisas, na sua maioria, ficam no país de origem, não saem para fora. Questionado sobre HP, IBM, Sun e outras que dão suporte a Linux mas são multinacionais, ele rebate dizendo que ainda há remessas ao exterior, mas de qualquer forma é menor: Não se remete lucro pela venda de software.
- Ele citou uma pesquisa encomendada pela Microsoft, onde o TCO (Custo Total de Propriedade) do Windows e do Linux é o mesmo depois de 5 anos. Ou seja, o suporte para Linux é mais caro. Enquanto alguns vêem isso como uma desvantagem, ele enxerga como uma vantagem que poucos vêem: O profissional que dá suporte a Linux ganha mais, e vê aí uma possibilidade de que mais gente lucre com isso.
- Ele critica severamente a pirataria, que é danosa para qualquer modelo de software, tanto livre como proprietário. Ele não é contra empresas que vendem software, mas apresenta o software livre como uma opção mais vantajosa.
- Por que Linux não é tão adotado? Inércia, na maioria dos casos. Sim, foi falado da questão da pirataria, do Uíndous a R$ 10. Aliás, falaram que ele não citava o “nome do demônio” (Microsoft), mas ele justificou, dizendo que não é só a Microsoft que ele critica (civilizadamente).
- Ah, 90% das pessoas que desenvolvem software no mundo não o fazem com software proprietário.
- Uma das coisas que ele gosta da Internet é ver talentos que seriam desperdiçados e não surgiriam por estarem fora do eixo principal (EUA), mas surgem. Ele citou o Linus (Finlândia), mas eu acrescentaria ainda o Miguel de Icaza (México), o Arnaldo Carvalho de Mello (Brasil), o Rik Van Riel (Holanda), o Alan Cox (Inglaterra), o Mark Shuttleworth (África do Sul), entre muitos e muitos outros.
- Quem disse que software livre tem poucos usuários? Se você usa Internet, você usa software livre: DNS (Bind), servidores Web (Apache), sistemas de envio de email (sendmail ou postfix)… Serviços como o Google, e por aí vai.
- Ah, ele era democrata quando jovem, virou republicano, mas depois do último governo dos EUA, voltou a ser democrata.
- Mais de 50% dos servidores hoje em dia usam Linux, no mundo, e 90% dos supercomputadores mais rápidos do mundo rodam Linux. O primeiro número eu não sabia, mas o segundo sim.
- Foi citado que a Microsoft diz que de cada real que ela lucra, 12 reais são gerados no Brasil, por conta de serviços correlatos. O Maddog rebateu, dizendo que as pessoas que fazem esses serviços correlatos (instalação, correção, documentação, aulas, etc) podem fazê-lo com software livre também. As pessoas não estão necessariamente presas ao modelo vigente. Prendem-se porque querem, mas podem crescer em outra direção.
- Falaram de política, de que mesmo ditadores falam de liberdade, etc… E ele responde: “Ué, você nunca ouviu falar de George Bush?”.
- Ele citou o embargo econômico dos EUA a Cuba que dura mais de 40 anos, e que impede que empresas estadunidenses vendam legalmente quaisquer produtos estadunidenses para a “ilha de Fidel”, inclusive software. Mas software livre não tem nacionalidade, logo pode ser usado por lá.
- O problema da perda de cérebros para o exterior ele falou, mas não acho que seja lá tão sério assim, mesmo no nosso país, onde 7% dos universitários estão em áreas tecnológicas (em outros países esse índice chega a 30%). Citou o exemplo da Venezuela, onde muitos saíram do país para poder crescer profissionalmente, e não ficar o resto da vida instalando Windows.
- Ele falou aquilo que eu sempre digo, sobre ser amigável na verdade é que as pessoas estão mais acostumadas a ele. Nas palavras do Maddog: “Se o Windows é um sistema intuitivo, então temos que redefinir o que é intuitivo“. Ah, ele citou o Mac OS X como exemplo de sistema fácil (podem ficar felizes, Gustavo e André Bonaparte!).
- Na questão de monopólio, ele fala que nos EUA existem monopólios que são monitorados pelo governo, como das distribuidoras de energia elétrica e de telefonia. O problema é quando o monopólio infringe leis de livre comércio, e tira proveito do seu poderio econômico para tornar o seu monopólio ainda maior, esmagando a concorrência.
- Sobre o Google, ele lembra que haveria a necessidade de análise, para ver se ele está infringindo alguma lei, e ele não é a melhor pessoa para avaliar. Mas ele acha que o Chrome OS será bom para o Linux, pois por exemplo, quem fizer drivers para o sistema operacional do grande G, estará fazendo-o para o Linux também. Afinal, o kernel é o mesmo.
- Com a insistência de transformar a discussão em algo mais político (e o Maddog falando que é uma questão econômica), o Sérgio Amadeu (um dos entrevistadores) lembrou que software livre não tem cor política: Na Bahia, os projetos de implantação de software livre no governo foram iniciados durante o governo do DEM (Democratas), que são um partido de direita (o antigo PFL). Em vários lugares foram implantados por partidos políticos que não se alinham com o partido que está no poder no Brasil desde 2002 (o PT). No Paraná, foi no período do PMDB, que é aliado mas não é de esquerda como o PT.
- Finalmente, se ele fosse dar o “Nobel” do software, ele entregaria para duas pessoas:

Linux for Dummies, de autoria do Cachorro Louco.
- Grace Hopper, uma programadora da Marinha estadunidense que criou a linguagem Cobol (e foi a primeira mulher almirante);
- Douglas McIlroy, que participou do início do desenvolvimento do Unix, e criou as expressões regulares, os filtros e os pipes (os dutos).
A legenda estava ótima, com pouquíssimos erros. Presentes na mesa estavam Heródoto Barbeiro (CBN), Wilson Moherdaui (Informática Hoje), Rodolfo Lucena (Folha de S. Paulo), Sergio Amadeu (Faculdade Cásper Líbero) e Pedro Doria (Estado de S. Paulo Digital). O vídeo estará disponível com os melhores momentos no site próprio para isso da TV Cultura, o IPTVCultura.
O que achei? Sensacional, o Maddog, com uma paciência e uma tranquilidade para argumentar que deveria ser praxe de toda pessoa que defende uma causa (tecnológica, política ou religiosa) explicou tudo, com calma. Não escorregou em nenhuma pergunta, mas se bem que ele fugiu um pouco em duas respostas, principalmente na questão política. Só não foi melhor porque o velho “Cachorro Louco” ainda não autografou a minha edição do “Linux for Dummies”, escrita por ele em 1998. Eu tenho a 2a edição, comprada em 2000, mas nunca consegui levar o livro para pedir uma dedicatória… Well, fica para a próxima vez que ele vier ao Rio de Janeiro, eu não tenho cacife para ir a uma Latinoware.







