O fim da inocência ou da impunidade dos torrents?
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Acabo de ler no Br-Linux uma matéria falando que o The Pirate Bay pretende ser mais amigável à indústria de entretenimento e cobrar por serviços prestados aos usuários. Quem estava debaixo de uma pedra até agora, ou não faz downloads (como meu pai), não deve conhecer o The Pirate Bay. Eles são autointitulados “o maior tracker de BitTorrent do mundo“. Se você não sabe também o que é BitTorren, vai na Wikipédia para ler e saber.
Vamos fazer um histórico do TPB:
- Fundado em 2003 por uma organização sueca anticopyright (o Bureau da Pirataria), torna-se independente em 2004.
- Cresce absurdamente com o aumento do uso do Bittorrent como protocolo ideal para transferência de arquivos grandes.
- Cartas e e-mails ameaçadores, de advogados representantes de empresas do entretenimento, produção de software e outros, começam a pipocar. O TPB começa a respondê-los com fina (ou grossa) ironia, visto que, segundo as leis suecas, eles não estão fazendo nada de errado. Eles tem inclusive uma página relacionando as ameaças legais que eles sofreram, e as respostas que eles deram, vale a olhada. Algumas das melhores respostas são: depois deles xingarem um palavrão, mandando os advogados se f****, encerram a missiva: “Educados, como sempre…“
- Em 2005, o Bureau de Pirataria lança um livro, “Copy Me”, falando de direitos de cópia, textos do filósofo Michael Foucault, etc.
Em 1 de janeiro de 2006, o TPB participa junto com o Bureau de Pirataria e outras pessoas da fundação de um partido político, o Partido Pirata sueco (Piratpartiet). O site está em inglês e português, mas tem um site que comenta notícias do PP no Brasil. Hoje em dia existem grupos em 23 países, e em 2009 o PP sueco elegeu um deputado para o Parlamento Europeu. A discussão levantada pelo PP é sobre a legislação de copyright, extremamente restritiva e ao ver deles, danosa. Na Suécia, o PP é o terceiro maior partido em número de filiados, e o grupo jovem é o maior de todos os partidos suecos.Em 31 de maio de 2006, o primeiro golpe no TPB: A polícia sueca invade a empresa onde os servidores são hospedados, apreende-os e os leva. O site fica fora do ar por… 3 dias. Vale lembrar que foi colocado no ar um backup do TPB no ar, a partir da Holanda. Houveram protestos nas ruas de Estocolmo (capital da Suécia, para quem não sabe), e DDoS nos sites da polícia sueca e do governo daquele país. Os amigos do TPB são delicados, não? Mas o melhor é o post no blog deles, que é hilário. Eles ironizam a invasão, feita pela polícia sueca sob pressão do governo dos EUA (segundo eles mesmos). Abaixo transcrevo em português:
- Tiamo fica MUITO bêbado, e então algo quebra: 4 dias
- Anakata pega um resfriado daqueles, e não tem ninguém por perto: 7 dias.
- O governo dos EUA e da Suécia forçam a polícia a roubar nossos servidores: 3 dias.
- Ainda em 2006, o TPB participou da produção de… Um filme. O filme tem por título “Steal This Film” (Roube Este Filme). Esse é um documentário, na verdade, que fala sobre compartilhamento de arquivos, e o TPB é o foco principal na primeira parte, de 36 minutos. A segunda parte, de 47 minutos, foi lançada em 2007.
Em 2007, o TPB anuncia o interesse em adquirir Sealand, o menor país do mundo, e de lá hospedar os seus servidores. Só que o príncipe de Sealand resolve “vender” a velha plataforma de observação por um preço muito alto, e o negócio mela, mesmo com a campanha para levantar fundos. No final das contas, eles abandonam a idéia. Ah, a Ladônia também foi alvo do interesse deles.- A brincadeira deles de Primeiro de Abril foi que os servidores seriam movidos para a Embaixada da Coréia do Norte na Suécia…
- Ainda em 2007, o Bureau de Pirataria queima vários livros num protesto, afirmando que não há mais debate sobre o compartilhamento de arquivos: “Trocar arquivos não é um debate, é um fato“.
- Dispensável dizer que tentaram processá-los de várias maneiras, mas só em 2008 formataram um processo, que começou em 2009. Antes, sanções por parte de provedores italianos e suecos foram feitas contra o tracker, mas sem sucesso.
- O julgamento, amplamente divulgado, terminou com a promotoria exigindo a prisão dos quatro fundadoesr do TPB por 1 ano, além de multa de R$ 3,6 milhões. Vale notar que eles recorreram, e que a multa indenizatória ficou quatro vezes menor do que foi exigido pelos estúdios. Peter Sunde, um dos fundadores declarou que prefere queimar dinheiro a pagar a multa.
- O mesmo Peter Sunde veio ao 10o FISL como convidado para falar.
- Em julho de 2009, outro processo movido contra eles dá início… Mas não tem jeito, o pessoal não sabe nada de geografia: Estão processando eles em Estocolmo, onde nenhum deles mora!
- E, finalmente, no final de junho de 2009, o TPB é comprado por uma empresa, a GGF (Global Gaming Factory) dona de uma grnade rede de lanhouses, e resolve mudar o foco.
Apenas algumas estatísticas… Aqui vão algumas das razões pelos quais o TPB está fora do ar de vez em quando – e quanto tempo leva para consertarmos:
Nota: Para quem não sabe, Tiamo e Anakata são dois dos administradores dos servidores. E sim, são homens. Ah, agora os servidores deles estão espalhados pelo mundo, com cópias redundantes salpicadas por datacentros espalhados pelos continentes afora.
No passado, outros serviços de compartilhamento de arquivos lidaram com situações semelhantes:
- O Napster, o primeiro deles, foi fechado em 2001, numa grande luta judicial. No final de 2002, tornou-se uma rede legalizada de troca de arquivos com direitos de cópia, para usuários que pagam por isso.
- O AudioGalaxy era o meu favorito para músicas: Compartilhava muita coisa, e vendia músicas de vários artistas. Não resistiu à ação legal e fechou o serviço de compartilhamento. Hoje ele só vende, mas pelo visto o site está abandonado desde 2003.
- O KaZaa fez muito sucesso aqui no Brasil, principalmente na versão Lite (dita, sem spyware), também foi processado, e US$ 100 milhões a título de indenização foi cobrado do sistema. Hoje em dia a empresa dona do KaZaa cobra US$ 18,98 mensais para download ilimitado de músicas protegidas por DRM. Mas ainda há quem use a rede antiga para troca de arquivos (e malwares).
- E o Suprnova? Esse foi o primeiro grande site de torrents. Ele começou em 2002, fechou no final de 2004 por causa de ameaças legais. Mas pelo menos o destino foi melhor, em 2007 o site reabriu (o domínio foi doado a quem? Ao povo do The Pirate Bay), mas não é mais um local muito bom para achar arquivos .torrent.
Hmmm… Será que o TPB, seguindo esse caminho, vai compensar financeiramente? O que eu não entendo é que, pelo visto, para ninguém compensou. Irá compensar para eles? Por isso a pergunta no título: Seria o fim da inocência, a indústria retrógrada solapando a criatividade… Ou ficou provado que não dá para montar um site de torrents sem ter alguns problemas?
Fico com vocês nos comentários. O que vocês acham?
Minha opinião: Se o TPB sair do ar, terão outros trackers torrent, outros sites de busca… Sempre haverá ratos e gatos. É enxugar gelo, encaixotar fumaça e chover no molhado, não dá.








